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VosFactures: uma plataforma de faturação francesa pirateada através do gerador de PDF

No fim de setembro de 2026, um mês após o arranque da faturação eletrónica em França, o prestador polaco da VosFactures, uma plataforma aprovada, foi pirateado através do seu gerador de PDF. Dados expostos, reação do Estado francês, risco de IBAN falso.

A reforma francesa da faturação eletrónica tinha um mês. Desde 1 de setembro de 2026, todas as empresas sujeitas a IVA em França têm de poder receber faturas eletrónicas através de uma plataforma aprovada (uma plateforme agréée, ou PA), e as grandes empresas e as de dimensão intermédia têm também de as emitir por essa via. A 29 de setembro, a FACTUALI, a sociedade que explora a VosFactures, uma dessas plataformas aprovadas, foi informada de uma intrusão no seu prestador técnico, a empresa polaca Fakturownia. Dois dias depois, o Estado francês suspendia por precaução, durante alguns dias, as trocas de dados entre os seus próprios serviços e a plataforma.

É, portanto, uma história francesa e polaca. Para as empresas que usam a VosFactures — que afirma contar com «mais de 500 000 profissionais» (VosFactures) —, a questão é muito concreta: o que foi exposto, e o que devem fazer? Para todos os outros, incluindo quem, em Portugal, fatura através de um serviço online ou converte documentos em PDF no servidor de outra pessoa, o caso lembra uma evidência que se esquece com facilidade: um documento tratado num servidor também existe nesse servidor.

O que aconteceu?

O prestador publicou uma cronologia detalhada (Fakturownia, atualização de 1 de outubro). O atacante teve acesso aos sistemas desde cerca das 3h20 de 27 de setembro até cerca das 17h45 de 28 de setembro. O acesso foi cortado às 18h01, as chaves e as palavras-passe foram alteradas e o serviço passou para servidores reconstruídos «de raiz». A 29 de setembro, às 2h35, a Fakturownia acrescentou proteções adicionais… ao seu gerador de ficheiros PDF. No mesmo dia, a empresa avisou a autoridade polaca de proteção de dados (UODO), a equipa nacional polaca de resposta a incidentes (CERT Polska) e a polícia.

Foi por aí que o atacante entrou, segundo as duas empresas. De acordo com a VosFactures, explorou uma vulnerabilidade que afetava «um mecanismo de geração de ficheiros PDF a partir de modelos de faturas», o que lhe deu acesso a ficheiros de configuração que continham «chaves de aplicação e identificadores técnicos». A partir daí, conseguiu executar comandos em vários servidores e obter acesso de leitura a uma réplica da base de dados de produção (FrenchBreaches, Econostrum). O diretor técnico da Fakturownia confirmou o ponto de partida ao site polaco Niebezpiecznik: o atacante encontrou uma falha nos modelos de faturas, depois uma falha na biblioteca que gera os PDF, e extraiu daí a chave que serve para assinar as sessões dos utilizadores, o que lhe abriu o acesso ao servidor (Niebezpiecznik). A VosFactures afirma não ter «nenhum elemento» que revele um comprometimento direto do seu próprio ambiente, que detém a qualificação SecNumCloud da ANSSI — a certificação de segurança que a agência nacional francesa de cibersegurança atribui aos serviços cloud.

Cronologia do incidente VosFactures, de 27 de setembro a 4 de outubro de 2026: intrusão no prestador Fakturownia através do gerador de PDF, corte do acesso, notificações, suspensão das trocas de dados pelo Estado francês e, depois, restabelecimento sob vigilância

Que dados foram expostos?

As duas empresas não dizem exatamente o mesmo, e as suas declarações foram mudando.

Do lado polaco, a Fakturownia indica que o incidente «diz respeito a todas as contas». Os dados roubados incluem os dados das contas, os IBAN, as palavras-passe, guardadas sob a forma de hashes, as chaves de acesso às interfaces de programação (API), os montantes de todas as faturas, as fichas de clientes e fornecedores adicionadas antes de 16 de outubro de 2024 e o conteúdo completo das faturas anteriores a 22 de março de 2021. Para cerca de 2 250 contas, foram copiados todos os dados de 2022 a 2026. Os cartões de pagamento e os certificados do KSeF, o sistema nacional polaco de faturação eletrónica, não foram afetados. O primeiro comunicado, de 29 de setembro, falava de faturas anteriores a 2023; a atualização de 1 de outubro é mais precisa, e mais ampla em alguns pontos (Fakturownia). A Fakturownia comercializa também o seu software com outras marcas no estrangeiro, entre elas a InvoiceOcean no Reino Unido e a Bitfactura em Espanha. O aviso da Bitfactura, datado de 2 de outubro, precisa que o incidente «afeta todas as contas do serviço, incluindo todas as contas BitFactura» (Bitfactura); o site britânico da InvoiceOcean, por seu lado, não mostrava qualquer aviso a 11 de outubro.

Do lado francês, a VosFactures refere os dados das contas, os dos clientes e fornecedores dos seus utilizadores e uma parte dos documentos gerados (Next). Segundo a FACTUALI, os dados de cartões de pagamento não foram afetados; a declaração diz respeito ao seu ambiente seguro, sem precisar se todas as contas estão alojadas nele (Fuites Infos). Todas as chaves API foram invalidadas a 1 de outubro (Fuites Infos). O número de clientes franceses efetivamente afetados não foi divulgado.

Um atacante que se apresenta com o nome «Fingerprint» afirma ter roubado 6 terabytes de faturas; esta alegação não foi verificada (The Record). O mesmo pseudónimo já tinha reivindicado ataques a serviços médicos polacos. Apresentando-se como um «hacker ético», o autor garante não querer vender os dados; os serviços polacos suspeitam que seja polaco (Rzeczpospolita). A 1 de outubro, a Fakturownia indicava que os dados não tinham sido tornados públicos, e até 11 de outubro não tinha sido assinalada nenhuma publicação.

Porque é que o Estado francês suspendeu a plataforma?

Na manhã de 1 de outubro, segundo a FranceTransactions, a AIFE (Agence pour l'informatique financière de l'État, o organismo público que gere a informática financeira do Estado francês), responsável pelo Chorus Pro — a plataforma através da qual o setor público francês recebe as faturas —, suspendeu «a título provisório» as trocas de dados com a VosFactures. Precisou que, nessa fase, nenhum dado de faturação tinha sido transmitido à administração através desta solução, e que «nenhuma empresa poderá ser sancionada unicamente em consequência desta suspensão» (aviso da AIFE, citado pela eWatchers). A suspensão foi levantada no fim de semana de 3 e 4 de outubro. O aviso publicado em destaque pela AIFE, citado pela Next, explica que, após análise dos elementos técnicos transmitidos pela plataforma, «a situação operacional dos serviços da PA e as medidas de segurança tomadas não justificam a manutenção da suspensão»; as trocas «continuam, naturalmente, sob vigilância, como para todos os parceiros» (Next, FranceTransactions).

A decisão faz sentido. Desde 1 de setembro, uma fatura eletrónica em França tem de passar por uma plataforma aprovada, que a transmite ao destinatário e comunica alguns dos seus dados à administração (LegalPlace; explicámos a reforma em Faturação eletrónica em França: a sua fatura em PDF ainda é válida?). O setor público francês, por sua vez, já não aceita faturas por e-mail: «Já não pode enviar uma fatura em papel ou um PDF por e-mail a uma entidade pública», lembra a LegalPlace no seu guia do Chorus Pro (LegalPlace). Uma plataforma comprometida é, por isso, um elo de uma cadeia à qual toda a economia francesa está agora ligada.

Como é que um gerador de PDF pode abrir a porta de um servidor?

Nem a VosFactures nem a Fakturownia publicaram a técnica exata: sabe-se apenas que parte dos modelos de faturas e do gerador de PDF. O atacante, esse, descreveu ao site polaco Zaufana Trzecia Strona outra porta de entrada, uma injeção de SQL, que insere código nas consultas enviadas à base de dados; essa versão não foi confirmada (Zaufana Trzecia Strona). Mas a família de falhas em causa do lado do PDF é bem conhecida dos especialistas.

Para transformar um modelo de fatura em PDF, muitos serviços usam um motor que interpreta HTML — muitas vezes um navegador sem interface gráfica (headless) — que corre no servidor com privilégios alargados. Se um utilizador conseguir inserir no seu modelo código que o motor interprete, tornam-se possíveis vários ataques:

Já foram identificadas falhas deste tipo em ferramentas muito utilizadas: o wkhtmltopdf em 2022, por pedidos forjados para a rede interna (NVD), a biblioteca Python ReportLab em 2023, por execução de código (GitHub), e o dompdf em 2022, por execução de código através de um tipo de letra armadilhado (Positive Security). O cenário descrito pelas duas empresas — um modelo de fatura, um gerador de PDF, depois ficheiros de configuração, depois chaves, depois a base de dados — encaixa neste esquema, sem que se possa afirmar que foi isso que aconteceu.

Como um gerador de PDF do lado do servidor pode tornar-se uma porta de entrada: um modelo de fatura com código que é interpretado, um motor HTML para PDF com privilégios alargados, o acesso aos ficheiros de configuração e às chaves e, depois, à base de dados

O que devem fazer as empresas clientes?

As recomendações da Fakturownia, da VosFactures e dos juristas franceses que analisaram o caso vão no mesmo sentido (Fakturownia, Leto, Kohen Avocats):

  1. Mudar a palavra-passe, na VosFactures e em todos os sítios onde era reutilizada. Ativar também a autenticação de dois fatores, quando o serviço a oferece, não custa nada.
  2. Gerar novas chaves API se houver programas ligados à plataforma.
  3. Desconfiar de qualquer pedido de alteração de IBAN (em França, fala-se de alteração de RIB: o relevé d'identité bancaire, o documento com os dados da conta que os bancos franceses emitem, o equivalente ao comprovativo de IBAN). Os IBAN e as relações entre clientes e fornecedores expostos são exatamente o que é preciso para montar uma fraude do falso fornecedor. Qualquer pedido deste tipo deve ser confirmado por telefone, para um número que já conheça. Explicamos o método em Fatura falsa, IBAN falso: como detetar um PDF falsificado. Se chegar uma fatura inesperada em anexo, a ferramenta Analisar um PDF indica, sem a mostrar nem a executar, se contém código, ligações externas ou ações automáticas; não verifica o IBAN.
  4. Documentar o incidente. Cada empresa cliente continua a ser responsável pelo tratamento dos dados pessoais dos seus próprios clientes e fornecedores: tem de inscrever o incidente no seu registo de violações e avaliar se se impõe notificar a CNIL, a autoridade francesa de proteção de dados, no prazo de 72 horas (Leto, Kohen Avocats, CNIL).
  5. Não deixar de pagar unilateralmente a subscrição da plataforma, o que expõe a uma condenação ao pagamento das quantias em dívida, e guardar as provas das comunicações: notificação recebida, mensagens, registos de acesso.

E em Portugal? As faturas emitidas por programas certificados pela AT, a Autoridade Tributária e Aduaneira, têm de incluir um código QR; desde 1 de janeiro de 2023, todas as faturas, seja qual for o meio de emissão, levam o ATCUD, o código único do documento, e os seus elementos são comunicados à AT até ao dia 5 do mês seguinte, por webservice ou num ficheiro baseado no SAF-T (PT) (Portal das Finanças, Portal das Finanças, Portal das Finanças, Portal das Finanças). A fatura eletrónica é obrigatória nos contratos públicos para as grandes empresas desde 1 de janeiro de 2021 e deve sê-lo para as micro, pequenas e médias empresas a 1 de janeiro de 2027 (eSPap); para efeitos fiscais, uma fatura em PDF é aceite como fatura eletrónica até 31 de dezembro de 2026 (Lei n.º 73-A/2025, artigo 95.º), e a proposta de Orçamento do Estado para 2027, entregue na Assembleia da República a 8 de outubro e ainda por votar, adia estes dois prazos um ano (Proposta de Lei n.º 110/XVII/2.ª, artigos 77.º e 138.º). Se um prestador que trata dados pessoais por conta da sua empresa sofrer uma violação de dados, a empresa, enquanto responsável pelo tratamento, tem de notificar a CNPD, a Comissão Nacional de Proteção de Dados, no prazo de 72 horas após ter tido conhecimento da violação, a menos que esta não seja suscetível de resultar num risco para os direitos e liberdades das pessoas, e de documentar todas as violações, mesmo as que não notifica (CNPD).

O que o caso ensina para além da VosFactures

Não é um argumento contra a reforma. A fatura eletrónica visa sobretudo a fraude ao IVA, e as plataformas aprovadas são controladas pelo Estado. Mas o caso ilustra três realidades que valem para qualquer serviço online.

A segurança de um serviço é a dos seus subcontratantes. A VosFactures não foi atacada diretamente: quem foi atacado foi o seu prestador. A qualificação SecNumCloud do seu próprio ambiente não impediu a exposição dos dados tratados noutro lado.

As plataformas tornam-se alvos concentrados. Uma plataforma de faturação reúne, para milhares de empresas, IBAN, relações comerciais e montantes. É precisamente o que procuram os autores de fraudes com transferências bancárias.

Cada documento criado ou transformado num servidor é uma superfície de ataque. Gerar, juntar, converter ou comprimir um PDF num servidor implica que o ficheiro, e por vezes o código que o produz, passe por esse servidor (descrevemos esse percurso em Para onde vão os seus ficheiros quando usa um conversor PDF online?). Para as faturas oficiais em França, não há alternativa: têm de passar por uma plataforma aprovada. Para tudo o resto — juntar comprovativos, tornar mais leve uma digitalização, extrair uma página, pôr uma marca de água numa cópia —, há uma: fazer o trabalho no seu próprio computador. É o princípio do PDFKami, cujas ferramentas funcionam no navegador, sem enviar o ficheiro para lado nenhum.

Glossário

Plataforma aprovada (PA): plateforme agréée, em francês; operador registado pela administração francesa para emitir, transmitir e receber as faturas eletrónicas.

AIFE: Agence pour l'informatique financière de l'État, o organismo do Estado francês responsável pela informática financeira, que gere, entre outros, o Chorus Pro.

Chorus Pro: plataforma de faturação eletrónica do setor público francês.

SecNumCloud: qualificação de segurança dos serviços cloud atribuída pela ANSSI, a agência nacional francesa de cibersegurança.

Chave API: identificador secreto que permite a um programa ligar-se a um serviço online.

Injeção de modelos (SSTI): ataque que consiste em inserir código num modelo que o servidor interpreta.

SSRF: server-side request forgery, ou falsificação de pedidos do lado do servidor; ataque que obriga um servidor a fazer pedidos a recursos internos.

Registo de violações: registre des violations, em francês; documento que todo o responsável pelo tratamento tem de manter ao abrigo do RGPD, com a lista dos incidentes que afetam dados pessoais.

FAQ

O que aconteceu à VosFactures?

No fim de setembro de 2026, um atacante explorou uma falha no gerador de PDF do seu prestador polaco, a Fakturownia, o que lhe permitiu aceder a chaves técnicas e, depois, a uma cópia da base de dados.

Os meus dados na VosFactures foram expostos?

A Fakturownia indica que o incidente diz respeito a todas as contas. Para os clientes franceses, a VosFactures refere os dados das contas, os clientes e fornecedores e uma parte dos documentos; o número exato de vítimas não foi divulgado.

Os cartões bancários foram afetados?

A Fakturownia indica que os cartões de pagamento não foram roubados, e a FACTUALI que os dados de cartões do seu ambiente seguro não foram afetados. Em contrapartida, há IBAN entre os dados expostos.

O Estado francês bloqueou a VosFactures?

A AIFE suspendeu as trocas de dados com a plataforma a 1 de outubro, por precaução, precisando que nenhuma empresa seria sancionada por esse motivo. Restabeleceu-as no fim de semana de 3 e 4 de outubro, após análise dos elementos técnicos transmitidos pela plataforma, e mantém-nas sob vigilância.

O que devo fazer se uso a VosFactures?

Mudar a palavra-passe, gerar novas chaves API, confirmar por telefone qualquer pedido de alteração de IBAN e documentar o incidente no seu registo de violações.

Devo desconfiar da faturação eletrónica?

Não. Em França, a reforma continua a ser obrigatória e visa a fraude ao IVA. O incidente lembra apenas que é preciso escolher a plataforma com cuidado e estar atento aos pedidos de alteração de IBAN.

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